quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O cheiro da saudade

Naquele dia o cheiro de borracha nova de bicicleta se incorporava aos secos e molhados do armazém, meu coração nunca mais esqueceu a possibilidade de correr pelas ruas cabelo ao vento e a alegria de ter rodas. À noite o sonho foi embora com o assovio do guarda noturno que permitiu a fuga dos móveis e pertences da família, em busca de refugio no Rio de Janeiro.
Mas antes disso muito se perdeu naquele jardim, meu pequeno Pato Donald, azul no meio da plantação de alecrim que minha mãe usava na carne, o cheiro vinha de longe nos colocar na mesa de refeição. Uniforme escolar e cabelo alinhado, em busca do Caminho Suave que possibilitaria eu escrever mais tarde, apesar das deficiências no aprendizado, por conta daquela gestação equivocada, e mal resolvida para mim, lembranças do dia a dia dos anos em que vivi buscando um lugar para recolocar minha raiz.
No dia seguinte, o aroma da salsicha de lata com batatas amorosamente cozidas pela Tia Luisinha, nos alimentou e fomos embora para sempre, deixando para traz, os sons dos cachorros Rex que tinha convivido conosco na infância, do cantar das galinhas que conviveram naquele quintal por alguns dias, da jabuticabeira redonda e preta que tivemos que dividir com remelenta filha do amigo de meu pai, dos almoços com amigos da policia que me mostrou pela primeira vez uma folha de maconha quando eu tinha cinco para seis anos. Do brilho falso das pedras preciosas que vinham de brinde no sabonete, mas principalmente do cheiro doce e profundo da bicicleta que nunca mais me abandonou.

continuando

Fui levando minhas raízes pelo mundo e carregando com elas, minha busca por uma terra fofa, morna, úmida que me quisesse, me recebesse com todas as informações e necessidades.

Eu não posso me perder em minha própria vida... como eu perdi a imagem do Ingá.

I
Nasci depois de muitas dúvidas da minha mãe se era isso que deveria acontecer, mas como Deus era quem ditava suas regras em sua vida, cheguei, com acordos familiares de sustentação e controle dos próximos nascimentos. Era a segunda das mulheres de uma expectativa de um filho homem, que só chegou depois de seis longos anos e outra filha mulher no meio. Mas por mais que se tenha pensado que não iria influenciar na minha vida este momento de geração gestação e nascimento trouxe fagulhas até hoje.
Poucos amores foram suficientes para reparar as marcas.
Não muitos amores não foram capazes de reparar as marcas e hoje, sentada em pleno 2009, ou melhor, nas portas de 2010, essa falta de amor ainda gruda nas minhas reações, ou falta de reações.
Retardar minhas lembranças por escrito não resolveu. Várias horas de terapia não resolveram um grande amor... Ainda não tive, será que vai resolver?
Bem mas o fato que me traz aqui começa em um jardim cercado de muros brancos, varias árvores de frutas e lá no meio, bem no meio um pé de Ingá, fruta amarela, doce, pouco carne e muito caroço. Pelo menos essa era a imagem que me vinha à mente cada vez que voltava aquele jardim, bem recentemente descobri que não era bem assim. Do mesmo modo como minhas lembranças se perdiam com o tempo o fruto também havia se perdido. É tão forte essa lembrança vaga que do contraditório de não lembrar fica a saudade, a falta de raízes perdidas e expostas como uma grande árvore que com o medo do forte vento que pode derrubá-la.