terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Natal 2013



Parece que o tempo não dá tréguas e já é Natal. No decorrer da minha vida natal teve sempre um significado triste, melancólico. Minha formação cristã e política me levavam a ver na ressurreição de Cristo o momento de vida de vitória de conquistas e o nascimento de Jesus como o maior símbolo do capitalismo religioso. Todos comprando e distribuindo presentes e dando as sobras para os mais pobres os vulneráveis. Minha mãe também sempre carregou na tristeza as relações de natal e eu trouxe esse sentimento por uma vida toda.
2013 minha vida foi chacoalhada por inteiro. Revi valores, conceitos, sentimentos e me permiti rever questões religiosas e culturais. Destruir dentro de mim o velho e o antigo não foi fácil e ainda não terminei afinal não os escolhi, eles foram entrando e fazendo parte de mim desde pequena, não é assim que se faz! E assim, nesta revisão descobri o quanto é importante rever e cuidar de cada conceito que estudo aprendo e ensino, e continuo nada sabendo, agora ainda mais com minhas pequenas crianças em volta. Avó não são só carinhos e doces, também somos copiadas, é da vida aprender com exemplos dos com que convivemos.
Então o natal esse ano ficou feliz, perdeu a cara pelo menos dentro de mim de capitalismo que se sobrepõe á vida. É a comemoração da vida entre pessoas que amo é buscar o crescimento espiritual. Então fiz uma árvore linda verde, cheirosa de tuia e bolas vermelha e com cuidados de receber o sol e a água diariamente para se conservar fresca e viva até o dia 25 de dezembro.
Minha árvore é neste momento minha vida,  tem dois caules que representam minhas duas filhas amadas e cada bola colocada são minhas irmãs, meus irmãos, minhas amigas, meus amigos que pelo caminho foi me ajudando a crescer e a entender a vida. A terra minha mãe e meu pai que de tanto amor me mantiveram sempre a caminho e não desistindo nunca. O perfume que a tuia exala a cada toque do vento ou das mãos é a delicadeza do amor da Maria Fernanda, Ana Luiza e Lucas trouxeram para minha vida.
É natal.
E desta vez eu de verdade desejo um feliz natal.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Consciência Negra



Eram os anos 50 e naquele dia ela pensou que conseguira livrar seu filho da sorte de ser negro em terras de brancos. Mulher pobre cega de um olho fora abusada e não conseguira interromper a gravidez e eis que nasce um lindo e roliço bebê negro carregando toda sua raça, pronto para seguir seu destino. Não querendo que passasse pelos mesmos sofrimentos com um alfinete de fralda tenta acabar com sua pouca vida (essas são minhas lembranças). Não era esse o destino que o esperava e é salvo, ou não por uma família branca de origem italiana. Quem dera a morte o tivesse levado pensar ela, agora de onde estiver, todo o sofrimento de um negro em terras de brancos escravagistas esse pequeno passou. Comeu o pão que o diabo amassou, as surras foram diárias afinal é de “pequeno que se torce o pepino”, e ele não podia dar errado afinal estava sendo educado por mulheres brancas, verdade seja dita as surras não eram privilegio só dele naqueles dias muitas surras levávamos com a mesma intenção educar. O tempo fez com que surgisse a revolta e buscou alternativas para sua vida e sua vida foi de muito sofrimento, trabalho e pobreza, todos os restos caridosamente eram para ele, e seu filho não conseguiu mudar seu destino miserável, de nada adiantou ter sido adotado se o amor foi pouco, se as diferenças foram assim tratadas, se dos da sua idade ganhou carinho respeito, mas ninguém enfrentou o preconceito para dentro da família, nem tão pouco para a pequena cidade reacionária e  conservadora, como se fosse legado somente dele quebrar os grilhões da escravidão. A liberdade e o respeito de direito não foi tratado com ele.
 Na verdade ele conseguiu amolecer o coração do velho emigrante italiano, que o amava de um tanto invejável por qualquer um dos seus filhos e filhas e admirado por essa neta.
Hoje ele é o que o deixaram ser, sempre com um sorriso no rosto, agora sem dentes, servindo sempre a todas tradicionais famílias com seu trabalho de pintor, ”afinal isso ele carrega é pessoa honesta” pode entrar em qualquer casa afinal foi criado por uma “boa e tradicional família”, e segue levando a vida.
Consciência Negra, ele não a conseguiu, não o deixaram ter, ele foi criado para ser um branco filho de imigrantes italianos de pele escura, acho que entortaram o pepino. E eu hoje acordo com vergonha de mim de não ter enfrentado dentro da minha própria família a escravidão continuada, posso ter todas as justificativas do mundo, mas nada justifica.

domingo, 9 de junho de 2013

Dia dos Namorados e Santo Antônio afogado.


O cheiro que exalava do seu corpo era de quem viveu de amor.
O coração pulsava ainda ao pensar nos amores, nas orações para Santo Antônio, nas paixões de amor eterno e eterno enquanto dure. Marcas de que soubera viver e amar sem se aprisionar, sem ter medo que não durasse eternamente, quem eternizou cada momento de amor eterno.
Amou intensamente e soube se deixar amar. 
Foi amada, foi amante, foi usada e soube usar nem só para amar.
No presente o silêncio mora em seu coração, nem por isso está rezando para Santo Antônio nem sequer o afogou, apesar de certa vontade de colocar o santinho a pensar se não era sem tempo de deixá-la sentir de novo o gostinho do amor danado.

sábado, 8 de junho de 2013

Humano ainda

O cheiro que exalava de seu corpo era horrível, nem por isso deixava de ser humano. Suas unhas mais pareciam garras de tão longas duras e sujas, seus cabelos embaralhados e longos escondiam parte de seu rosto sujo e inchado de longos dias e noites de bebidas e drogas usadas para ocupar o tempo, tempo que tinha de sobra e que de nada valia.
Muitos passavam e mesmo olhando não o viam, nem ele se via no meio de tanta solidão e sujeira que com o tempo deixou de incomodar e a fazer parte de seu corpo de sua pele, uma espécie de couraça que o protegia do sofrimento e do abandono. Abandono que ele mesmo deixou acontecer por medo de enfrentar a si mesmo e buscar alternativas.
E pensar que tudo aconteceu tão de repete, de repente como o amor que pensou que era para sempre.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Para sempre nunca chega.


Para quem passou a vida mudando de casa de bairro de cidade, fixar raízes é muito difícil. E quando penso que desta vez é para sempre, tudo começa a se mexer e novamente outro lugar para viver começo a procurar. 
Tem o efeito de remexer na vida, nos guardados, e reencontrar as histórias vividas.
Os anos guardados em caixas e gavetas escondem fotos, recados, bilhetes, cadernos, emoções desses anos todos, e não foram poucos.
Algumas lembranças me acompanha uma vida toda e quando remexidas ganham a dimensão da realidade atual.  São vivos queridos que morreram. São pessoas amadas que vivem outros amores. São amigos e amigas tão distantes que desconheço seus caminhos. São retratos de uma infância agora distante. São crianças que hoje crescidas já construíram suas vidas. É o dia a dia de uma vida toda, lógico que o pó os acompanha o que me faz lembrar a rinite que ganhei nessa vida, mas isso é o de menos, o difícil e jogar, jogar pedacinhos das recordações. Pequenas recordações do passado que nem me lembro de porque guardei , que significado tinha que hoje não trazem juntos para o presente.
Fato é que não surgiram lágrimas como de outras vezes, só uma nostalgia; de não ver minha grumixama (eugenia brasiliensis) crescer florescer e dar fruto.